A “viagem marítima noturna” é a viagem a partes de nós mesmos que estão divididas, repudiadas, desconhecidas, indesejadas, banidas e exiladas nos vários mundos subterrâneos da consciência […].
A finalidade dessa viagem é nos reencontrarmos com nós mesmos. Essa volta para casa pode ser surpreendentemente dolorosa, até brutal. Para realizá-la, temos de primeiro concordar em nada exilar. Trecho do livro: “Yoga and the Quest for the True Self” — Stephen Cope
Há momentos na vida em que somos chamados a voltar para nós mesmos.
Não é uma decisão racional, nem um plano cuidadosamente organizado.
É quase sempre um movimento silencioso, às vezes suave, às vezes brutal que surge quando já não conseguimos sustentar as estratégias que usamos para não sentir, não lembrar, não encarar.
É como uma viagem marítima noturna: avançamos sem mapa, guiados apenas pela luz mínima que conseguimos perceber dentro da nossa própria escuridão.
E nessa travessia, inevitavelmente, encontramos tudo aquilo que deixamos para trás: dores antigas, desejos esquecidos, partes nossas que foram empurradas para fora da consciência para que pudéssemos sobreviver.
A psicanálise não é a responsável por criar essa viagem; ela é o espaço que acolhe esse movimento.
É onde o retorno pode finalmente acontecer com nome, com palavra e com testemunha.
Na análise, o sujeito não é empurrado a enfrentar a si mesmo, ele é acompanhado.
É essa companhia que torna suportável olhar para aquilo que antes parecia inominável.
Voltar a si não é um gesto nostálgico. É um ato de coragem.
É permitir que o que antes era sombra encontre lugar na luz.
É reconhecer que aquilo que parecia estranho sempre foi parte da nossa história, da nossa verdade, do nosso modo único de existir.
Ao final, a viagem não nos devolve ao ponto de partida, devolve-nos a uma versão mais inteira de nós mesmos.
Uma versão que não foge de si, mas que se reconhece, se aceita e se autoriza a viver com mais presença.
Essa é, talvez, a promessa mais profunda do trabalho analítico: "uma travessia de volta para casa e a descoberta de que essa casa sempre fomos nós."
