É frequente, na escuta clínica de brasileiros que vivem fora há alguns anos, encontrar uma cena parecida: a pessoa tem emprego, apartamento, colegas de trabalho que a convidam para sair na sexta. Recusa quase sempre. Não por falta de interesse — por exaustão. Aparece numa frase como "quando chego em casa, fecho a porta e não quero falar com ninguém. Nem em português." No início, se atribui a introversão. Depois de algum tempo, costuma ficar claro que a solidão do imigrante brasileiro não era escolha — era sintoma.
A solidão morando fora do Brasil é uma das queixas mais frequentes que recebo na clínica. Mas nem toda solidão é igual. Existe a solidão que faz parte do processo migratório — natural, esperada, temporária. E existe a solidão que se instala, que se aprofunda, que vai virando isolamento até a pessoa perceber que não é mais ela quem escolhe ficar sozinha: é a solidão que a escolheu.
Resumo rápido
- A solidão na imigração é esperada, mas quando se cronifica e a pessoa evita ativamente o contato, pode ser sintoma de algo mais profundo
- Winnicott distinguia a capacidade de estar só (sinal de maturidade emocional) do isolamento defensivo (sinal de sofrimento)
- Para o imigrante, a solidão pode mascarar luto não elaborado, depressão, ou uma recusa inconsciente de criar raízes
- A psicanálise em português oferece espaço para investigar o que a solidão está protegendo — ou escondendo
A solidão esperada e a solidão que preocupa
Quando você muda de país, perder boa parte da rede social é inevitável. Os amigos ficaram no Brasil, a família está longe, e construir novas relações exige um esforço que vai além do social — é linguístico, cultural, emocional. Nos primeiros meses, talvez anos, sentir solidão é parte do processo.
A questão muda quando essa solidão deixa de ser circunstancial e passa a ser estrutural. Quando a pessoa já poderia ter construído vínculos, mas não construiu. Quando recusa convites repetidamente. Quando os fins de semana são passados inteiramente sozinha, não por escolha genuína, mas por uma inércia que ela não entende. Quando o contato com brasileiros no exterior se limita a grupos de WhatsApp nos quais ela lê mas não participa.
Na minha clínica, aprendi a prestar atenção a uma distinção sutil: a pessoa está sozinha e sofre com isso, ou está sozinha e já nem sofre mais? A segunda situação costuma ser mais preocupante. Quando a solidão deixa de doer e vira cenário permanente, algo se anestesiou.
Winnicott e a capacidade de estar só
O psicanalista britânico Donald Winnicott escreveu, em 1958, um ensaio que considero um dos mais bonitos da psicanálise: A capacidade de estar só. Nele, Winnicott propõe algo que parece paradoxo: a capacidade de estar genuinamente só é sinal de saúde emocional. Mas essa capacidade só se desenvolve a partir da experiência de ter estado só na presença de alguém — tipicamente, a mãe ou cuidador primário.
Em termos simples: você só consegue ficar bem sozinho se, em algum momento da infância, pôde experimentar estar só sem estar desamparado. A criança que brinca no chão enquanto a mãe lê no sofá está aprendendo a capacidade de estar só. A presença do outro, mesmo em silêncio, sustenta a experiência.
O que acontece com o imigrante é que essa sustentação desaparece. Não existe mais o outro familiar no fundo da cena. A rede que sustentava a capacidade de estar só ficou no Brasil. E quando essa sustentação cai, a solidão pode mudar de qualidade — de saudável para angustiante, de escolha para compulsão.
No trabalho clínico, o que costuma aparecer é o reconhecimento de que a solidão no país de acolhimento não é a mesma solidão experimentada no Brasil. Antes, ficar sozinha costumava ser nutritivo — ir ao cinema, caminhar pelo parque, ler no café. Depois da imigração, ficar sozinha passa a ser mais parecido com se esconder. Não tem prazer. Tem evitação.
O que a solidão do imigrante pode estar escondendo
Na minha experiência clínica, a solidão crônica do imigrante raramente é o problema em si. Ela costuma ser a superfície de algo que está acontecendo por baixo. Algumas possibilidades que encontro com frequência:
O luto migratório não elaborado pode aparecer como isolamento. Quando a pessoa não encontrou espaço para processar as perdas da imigração, pode se retrair. A solidão funciona como uma espécie de câmara de conservação: se eu não crio vínculos novos, não confirmo que os antigos se perderam. Para quem quer entender mais sobre esse processo, escrevi em detalhe sobre a leitura psicanalítica do luto migratório.
A recusa inconsciente de criar raízes é outra possibilidade. Criar vínculos no país novo pode ser experimentado inconscientemente como traição — traição ao Brasil, à família que ficou, à vida que se tinha. A solidão, nesse caso, é uma forma de lealdade ao que foi deixado para trás.
A depressão mascarada também merece atenção. O isolamento progressivo é um dos sinais mais consistentes de quadros depressivos. A pessoa não percebe que está deprimida — acha que está cansada, que é introvertida, que "não é de sair mesmo". Quando a motivação para o contato social desaparece junto com a motivação para outras atividades que antes davam prazer, é hora de investigar.
E existe ainda o que eu chamaria de falso self migratório — conceito inspirado em Winnicott. A pessoa construiu, no país novo, uma persona funcional que trabalha, que se comunica, que resolve. Mas essa persona é tão diferente de quem ela sente ser "de verdade" que a convivência social se torna um exercício de performance. A solidão aparece como alívio dessa performance — o único momento em que não precisa atuar.
Quando a tecnologia engana
As videochamadas, o WhatsApp, as redes sociais — tudo isso cria uma ilusão de conexão que pode dificultar o reconhecimento da solidão real. Você fala com sua mãe todo dia. Manda áudio para as amigas. Acompanha a vida de todo mundo pelo Instagram. Tecnicamente, não está isolada.
Mas a conexão digital é assimétrica. Você vê a vida das pessoas, mas elas não veem a sua — não a vida real, a que acontece entre os stories. E as conversas por mensagem, por mais longas que sejam, não substituem a presença física: o café juntas, o abraço, a companhia silenciosa.
Na clínica, já atendi pessoas que mantinham contato digital constante com o Brasil e que, mesmo assim, estavam profundamente solitárias. O digital funcionava como um substituto que acalmava a superfície mas não tocava a profundidade. Como escaneei em outro artigo, os relacionamentos à distância carregam um peso psíquico próprio que merece atenção.
O caminho analítico: da solidão como queixa à solidão como pergunta
Na psicanálise, a solidão não é um problema a ser resolvido com técnicas de socialização. É uma pergunta a ser investigada. O que a solidão está dizendo? O que ela está protegendo? O que aconteceria se ela não estivesse ali?
Em casos assim, o trabalho revela, com alguma frequência, algo inesperado: a solidão no exterior estava conectada a uma experiência muito anterior à imigração. A pessoa já tinha dificuldade com proximidade antes de sair do Brasil — a imigração apenas amplificou o que já existia, tirando a rede que compensava.
Isso não significa que toda solidão de imigrante tem raiz na infância. Às vezes a solidão é mesmo efeito direto da imigração, do desenraizamento, da perda de contexto. Mas a análise permite investigar — e essa investigação é que abre caminhos que a pessoa não encontraria sozinha.
O objetivo não é deixar de sentir solidão. Winnicott nos lembra que a capacidade de estar só é conquista, não déficit. O objetivo é que a solidão volte a ser escolha, não prisão. Que ficar sozinha no sábado à noite seja algo que nutre, não que sufoca.
Se algo aqui fez sentido, pode ser um bom momento pra gente conversar. Você pode saber como funciona o atendimento ou explorar mais sobre saudade e seus efeitos para quem mora fora.
Perguntas frequentes
Como saber se minha solidão é normal ou se preciso de ajuda?
Alguns sinais merecem atenção: recusar convites sistematicamente, perder interesse em atividades que antes davam prazer, sentir que o isolamento já não incomoda, ter dificuldade para iniciar contato mesmo querendo. Se a solidão deixou de ser circunstancial e virou padrão, vale investigar o que está acontecendo por trás dela.
Solidão e depressão são a mesma coisa?
Não, mas se retroalimentam. A solidão prolongada pode contribuir para quadros depressivos, e a depressão frequentemente leva ao isolamento. Na clínica, é importante distinguir: a pessoa se isola porque está deprimida, ou está ficando deprimida porque se isolou? A direção do trabalho muda conforme a resposta.
Participar de grupos de brasileiros no exterior resolve a solidão?
Pode aliviar, e eu incentivo conexões com a comunidade brasileira. Mas se a solidão tem raízes mais profundas — luto não elaborado, dificuldade com intimidade, falso self migratório — a convivência social sozinha não resolve. Ela pode até expor o problema: você está rodeada de gente e ainda se sente sozinha.
A psicanálise online funciona para tratar solidão?
Na minha experiência, funciona muito bem — e com uma vantagem específica: o setting online em português cria um espaço de intimidade e pertencimento que pode ser justamente o que está faltando. A sessão se torna o primeiro vínculo real em língua materna, um ponto de ancoragem a partir do qual outros vínculos podem começar a se formar.
Este artigo tem caráter informativo. Não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual.
