Resumo rápido: As mulheres estiveram no centro da psicanálise desde o início — de Melanie Klein a Virgínia Bicudo, de Nise da Silveira a Maria Rita Kehl. Conhecer essa história muda a percepção de quem construiu o campo e por que a formação importa.

Quando olho para a história da psicanálise, uma das coisas que me chama atenção é o quanto as mulheres estiveram no centro do campo desde o início — como pacientes, como teóricas, como clínicas — e o quanto isso foi sistematicamente subregistrado. Eu penso nisso porque faz parte de entender a tradição em que me formei, e porque muda alguma coisa saber que o campo foi construído por muitas mãos femininas, mesmo quando os livros de história demoraram a registrar isso.

No Brasil, o nome que inaugurou essa história com mais força é Virgínia Leone Bicudo: primeira psicanalista negra do país, formada em São Paulo nos anos 1940, num tempo em que as duas condições — ser mulher e ser negra — criavam obstáculos que exigiam mais do que competência para atravessar.

Mas antes de chegar ao Brasil, vale entender que o campo já tinha sido moldado por mulheres desde a época de Freud.


As precursoras que Freud não apresentou direito

Anna Freud e Melanie Klein são as duas figuras femininas mais citadas na história da psicanálise — e a relação entre elas foi, por muito tempo, uma das disputas mais acirradas do campo.

Anna Freud desenvolveu a psicanálise de crianças com base na obra do pai, defendendo a análise do ego e uma abordagem que preservasse a aliança terapêutica com os pais. Melanie Klein foi em direção oposta: chegou mais fundo e mais cedo, trabalhou com bebês e crianças pequenas, postulou fantasias inconscientes desde os primeiros meses de vida.

A briga entre as duas escolas ocupou décadas da British Psychoanalytical Society. O que ficou dessas disputas foi um campo mais rico — a tensão forçou ambos os lados a formular melhor o que acreditavam.

Helene Deutsch, Lou Andreas-Salomé, Karen Horney, Frieda Fromm-Reichmann: há um grupo de mulheres da geração de Freud que contribuíram para a teoria, em alguns casos discordando diretamente dele. Horney, especialmente, questionou o conceito de inveja do pênis e propôs que o que Freud descreveu como psicologia feminina era, em larga medida, resultado das condições sociais — não da biologia. Isso não era posição fácil de sustentar nos anos 1930.


Virgínia Leone Bicudo: o que ela fez e por que esquecemos

Virgínia Leone Bicudo nasceu em São Paulo em 1910 e morreu em 2003, aos 92 anos. Entre esses dois pontos, ela fez mais do que a maior parte dos registros históricos da psicanálise brasileira documentou.

Antes de se tornar analista, ela fez pesquisa sociológica sobre relações raciais em São Paulo — trabalho que influenciou Florestan Fernandes e que antecipou perguntas que o país levou décadas para formular de outro jeito. Depois, fez sua própria análise, passou pela formação e se tornou membro titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Ela atravessou um campo em que ser mulher já era difícil e ser negra criava um obstáculo adicional. Não foi obstáculo que a impediu — mas foi obstáculo real, e fingir o contrário seria falsificar a história.

O esquecimento de Bicudo não é acidental. É o tipo de apagamento que acontece quando os registros históricos são feitos por quem está no centro. Nos últimos anos, pesquisadoras negras e estudiosas da psicanálise vêm reparando esse erro — resgatando os textos, citando o nome, colocando o trabalho dela de volta na estante. É um resgate que me parece necessário, não só historicamente, mas para que a formação atual seja mais honesta sobre quem construiu o campo.


Nise da Silveira: a recusa que criou um legado

Nise da Silveira não se identificava como psicanalista — ela era junguiana. Mas o que ela fez na psiquiatria brasileira tem tanta relevância para o campo da escuta quanto qualquer texto teórico.

Em 1944, ela voltou ao Centro Psiquiátrico Nacional no Rio de Janeiro depois de ter sido presa pelo Estado Novo por possuir livros marxistas. E se recusou a aplicar os tratamentos que o protocolo da época mandava: eletroconvulsoterapia e lobotomia. Pediu transferência e foi para a Seção de Terapêutica Ocupacional — lugar que a instituição considerava menor.

O que ela construiu ali foi uma clínica inteira fundada na premissa de que o paciente psiquiátrico tem um mundo interno que merece ser tratado com cuidado, não interrompido à força.

Os ateliês de arte que ela criou produziram obras que hoje estão em museus. Artistas como Raphael Domingues e Arthur Bispo do Rosário encontraram naquele espaço o que a psiquiatria ortodoxa havia tentado apagar.

Na minha leitura, o legado de Nise é mais simples do que a teoria permite elaborar: ela insistiu em ver o sujeito quando a instituição havia desistido disso. Esse gesto é o núcleo de qualquer clínica que se preze.


Adelheid Koch e a geração que formou a psicanálise brasileira

Durval Marcondes trouxe Adelheid Koch da Alemanha nos anos 1930 para fazer análises didáticas — pouco mais de cinco anos depois de fundar a SBPSP em 1927. Koch ficou no Brasil, formou a primeira geração de analistas do país e introduziu a teoria kleiniana (desenvolvida por Melanie Klein a partir dos anos 1920, com foco nas fantasias inconscientes desde a primeira infância) antes que ela se espalhasse amplamente.

O trabalho de Koch foi de bastidores — ela não publicou muito, não deixou um livro famoso. Mas a influência clínica foi direta: as pessoas que ela analisou tornaram-se os analistas que formaram a geração seguinte. Esse tipo de transmissão, pessoa a pessoa, sessão a sessão, é como a psicanálise se propaga — e Koch foi um nó central nessa rede por décadas.


Suely Rolnik: psicanálise, arte e política

Suely Rolnik é um nome que não cabe completamente dentro da psicanálise — ela trabalha no cruzamento entre clínica, filosofia, arte e teoria política. Formada no Brasil, com passagem pela França e pelo trabalho com Félix Guattari, ela desenvolveu o conceito de "subjetividade" de um jeito que influenciou tanto analistas quanto artistas e ativistas.

O livro "Cartografia Sentimental" (1989) é um dos textos mais citados quando se fala em psicanálise e cultura no Brasil. Mais recentemente, o trabalho dela sobre o que ela chama de "necropolítica da subjetividade" colocou a questão do corpo, do desejo e da resistência no centro de uma discussão política.

Rolnik não é referência para quem quer saber o que é luto segundo Freud. É referência para quem quer entender como o desejo e o sofrimento existem dentro de estruturas sociais e políticas mais amplas.


Maria Rita Kehl: o que a psicanálise vê que a política não enxerga

Maria Rita Kehl tem uma voz pública que poucos psicanalistas brasileiros conseguiram construir sem perder rigor. Ela escreve em jornais, dá entrevistas, aparece em debates políticos — e, ao mesmo tempo, mantém uma produção clínica e teórica séria.

O livro "Ressentimento" (2004) é o que a maioria das pessoas cita, e por boa razão: ele pega um conceito clínico — o ressentimento como posição subjetiva — e o usa para analisar dinâmicas políticas e sociais que qualquer brasileiro reconhece.

O que Kehl faz de mais interessante é recusar a divisão entre psicanálise clínica e crítica cultural. Para ela, essas coisas estão conectadas — e a análise individual não existe separada do mundo em que o sujeito vive.


O que isso tem a ver com você hoje

Conhecer a história das mulheres na psicanálise não é exercício de memória. É uma forma de entender como o campo foi construído — e por quem. Quando você entra num consultório, está entrando numa tradição. E essa tradição foi moldada por muitas mãos femininas.

Para quem está fora do Brasil e está considerando fazer análise, há algo nas histórias acima que me parece relevante: todas essas mulheres trabalharam em condições de deslocamento de alguma forma — Bicudo num campo que não tinha sido pensado para ela, Koch numa terra que não era a sua, Rolnik entre continentes.

O deslocamento não é apenas geográfico. É subjetivo. É a experiência de estar num lugar que não te reconhece completamente. Na minha clínica, trabalho com essa experiência o tempo todo — o que está por trás da adaptação, do esforço de pertencer, do cansaço de explicar quem você é. Isso tem nome, tem história clínica, e tem trabalho a fazer.


Conclusão

A história das mulheres na psicanálise não é paralela à história do campo — está no centro dela. De Klein a Bicudo, de Koch a Kehl, o campo foi moldado por mãos femininas que muitas vezes não tiveram o reconhecimento que mereciam na época. Para quem está considerando começar análise, conhecer essa história muda a percepção de quem construiu o campo — e por que a qualidade da formação importa mais do que qualquer outro critério.

Se algo aqui fez sentido, pode ser um bom momento pra gente conversar. Saiba como funciona o atendimento ou Agendar conversa pelo WhatsApp. Leia também sobre a história dos psicanalistas brasileiros e como ter uma consulta segura.


Perguntas frequentes

O gênero do analista importa na escolha?

Não há resposta universal. Para algumas pessoas, ter uma analista mulher faz diferença — especialmente para trabalhar certas experiências. Para outras, é irrelevante. O que importa mais é a qualidade da escuta. Quando o gênero do analista importa muito, isso em si vale ser explorado na análise.

Tem mais mulheres ou homens na psicanálise hoje?

No Brasil atual, as mulheres são maioria entre os analistas em atividade — especialmente nas gerações mais jovens. Isso não acontecia nas décadas anteriores, quando os nomes de maior visibilidade pública eram quase todos homens. A composição do campo mudou, e continua mudando à medida que novas gerações se formam.

Essas autoras ainda são lidas na formação?

Algumas sim, outras menos do que deveriam. Bicudo foi durante décadas pouco citada na formação formal — isso está mudando. Klein e Anna Freud fazem parte da formação na maioria das sociedades filiadas à IPA. Rolnik e Kehl são mais comuns nos contextos acadêmicos e nos grupos lacanianos.

Posso fazer análise com uma mulher mesmo sendo homem, e vice-versa?

Sim. A psicanálise não tem restrição de gênero na relação analítica. O que importa é a qualidade da escuta e o encontro clínico específico — e isso só se avalia numa sessão real. Se o gênero do analista importa para você, vale explorar esse dado antes de começar.

O deslocamento geográfico tem relação com o trabalho dessas mulheres?

Sim, e isso me parece relevante para quem está fora do Brasil. Bicudo trabalhava num campo que não havia sido pensado para ela, Koch veio da Alemanha, Rolnik circulou entre continentes. O deslocamento — geográfico e subjetivo — atravessa a história dessas mulheres e o que elas produziram no campo.