Em janeiro de 2021, decidimos que queríamos construir nossa família.

Foi uma decisão nossa, planejada, desejada. Mas a vida não esperou a gente organizar o cenário. Logo depois disso, veio a notícia do segundo câncer de mama da minha mãe. Pandemia ainda em curso, aeroportos fechados, tentativa de gestar. Tudo ao mesmo tempo, tudo pesado, tudo real.

Na semana seguinte, alguns voos foram liberados. Peguei um e fui ao Brasil.

Fiquei dois meses. E foi lá, perto da família, num momento tão delicado, que descobri que estava grávida. A emoção foi grande — daquelas que a gente não sabe muito bem se chora de alegria ou de tudo junto. Acho que foi de tudo junto. Com certeza aquela notícia foi combustível pra minha mãe naquele momento. Quando tudo estava bem e resolvido, voltamos a Portugal para dar continuidade à nossa vida.

E aí começou uma nova fase: aprender a ser pais, de longe de todo mundo.

Sem rede de apoio física, fomos aos poucos estudando como seria. Ligações pra família perguntando como eram as coisas, o que precisaria, como funcionava. Contamos com uma equipe de parto e uma doula que nos deram suporte, mas no dia a dia éramos eu e meu marido — e os padrinhos da nossa filha, que Portugal nos deu de presente.

O nascimento dela foi algo que eu carrego com muito carinho.

Eu tinha medo. Medo de como seria, de como seríamos tratados no hospital, de como seríamos cuidados longe de casa. Mas foi uma experiência respeitosa, acolhedora, bonita. Aquela noite no hospital, nós três imigrantes — eu, meu marido e ela, recém chegada ao mundo — fomos abraçados por aquelas pessoas. E abraço era exatamente tudo o que a gente precisava.

Depois que ela nasceu, a imigração ganhou outro peso. Outro olhar. Nos mudamos algumas vezes dentro de Portugal, fomos morar mais ao interior, e foi ali que sentimos: já era o momento de nos despedir.

E assim fizemos.

Nossa vida tomou um rumo totalmente diferente. Mas isso é história para o próximo capítulo.