Portugal foi a primeira parada. E foi ela que abriu tudo.

Janeiro de 2020. O meu marido tinha recebido uma proposta de trabalho, e a gente foi. Organizou a vida em malas, disse tchau pra Blumenau, e pousou em Portugal. Assim. Sem roteiro, sem certezas, sem rede de apoio do outro lado do oceano.

Os primeiros dias ele ia ao escritório — algo totalmente novo também pra ele, que no Brasil tinha sua própria empresa e trabalhava de casa. De repente eram metrô, colegas novos, um idioma que parecia igual mas não era, novas responsabilidades. E eu ficava. Para organizar o novo e explorar a vida portuguesa.

Vivendo no Porto, na rua de Barros Lima, em um estúdio, ouvindo o barulho da rua lá fora. Sem casa de mãe pra ir, sem amiga pra ligar, com um país inteiro do lado de fora esperando pra ser descoberto.

Então comecei a andar.

O Porto não tem pressa. Tem ladeiras, tem azulejo descascando, tem aquela luz que cai diferente no fim da tarde. Fui aprendendo a cidade aos poucos, sem destino, sem companhia. E num desses dias encontrei um café dentro do Via Catarina — daqueles lugares que você entra por acaso e passa a precisar. Serviam um café purinho, jeitinho português mesmo, e um crepe de Kinder Bueno que era, juro, um abraço em forma de massa. Fui várias vezes. Mais do que eu precisava de café — precisava de algo que me ancorasse, de um canto que fosse meu naquele lugar desconhecido. Ali ficava estudando, lendo, aprendendo sobre o país que tinha me recebido sem eu saber direito como corresponder.

Foi nessa mesma época que conheci a Sra. Edite.

Ela morava perto da nossa casa e todos os dias passava para alimentar os gatos do bairro. Foi assim que conheci o Fisgas, e outros gatinhos cujos nomes eu já não lembro. A Sra. Edite virou uma companhia silenciosa, dessas que não precisam de muito pra fazer sentido. Quando a pandemia chegou e o mundo fechou, ela continuava lá. A gente não sabia mais como era o abraço, mas de longe reconhecia as palavras pelos olhares. Tinha algo de muito bonito e muito estranho nisso — aprender que conexão também cabe numa janela, num aceno, num sorriso atrás de máscara.

Passei meses dentro de casa com a incerteza do lado de fora. Não sabia quanto tempo ficaria. Não sabia o que viria depois.

Mas quando as coisas foram abrindo, eu também fui.

Decidi tentar algo completamente novo: fiz cursos, tirei licença e entrei pra consultoria imobiliária. Do zero. Aprendi um mercado diferente, aprendi a língua nos seus detalhes, aprendi os jeitos e as formas de um povo que parece parecido com a gente mas é muito, muito diferente. Trabalhei com portugueses e com brasileiros — e aprendi dos dois lados, de formas que não esperava. Tive momentos que não foram fáceis, encontrei preconceito, vivi xenofobia, passei por um assédio. Coisas que muita gente que imigra conhece e raramente fala. Eu também não vou fingir que não aconteceu.

Mas tive momentos que foram maravilhosos. Fiz amigos. Fiz família. Descobri que sabia fazer mais do que pensava, que em outro país sempre tem tempo de aprender e recomeçar, que a gente não precisa chegar pronta pra começar.

Morei em Barros Lima, Heroísmos, Cedofeita, Mira de Aire. Conheci mais de 60 cidades por Portugal. E fui embora com algo que não cabia em mala: a sensação de que o mundo era muito maior do que a minha mente tinha conseguido imaginar até então.

Portugal foi o início. O start, como eu gosto de dizer.

Foi ali que a minha mente pequena — criada, amada e limitada em Blumenau — começou a entender que havia muito, muito mais esperando por ela.