É frequente, na escuta clínica de mães brasileiras que vivem fora há alguns anos, encontrar uma cena parecida: dois filhos pequenos nascidos no exterior, os avós maternos e paternos no Brasil, encontros ao vivo que cabem nos dedos de uma mão. A criança mais nova ainda não sabe direito quem são os avós. Para ela, a avó é "a vovó do iPad".
Aparece numa frase como "a vovó do iPad. Isso é o que a minha filha tem." E depois, um silêncio.
Não tem como resolver essa frase com palavras. Mas é exatamente esse lugar — o da dor que não tem como ser resolvida, só atravessada — que o trabalho analítico ocupa. Este artigo é para você que é mãe ou pai fora do Brasil e vive o peso de filhos crescendo sem os avós.
Resumo rápido
- A dor dos filhos crescendo sem os avós mistura culpa, saudade e a perda concreta de uma rede de apoio — e cada uma dessas coisas pede espaço separado
- A culpa fixada interfere na presença da mãe muito mais do que a ausência dos avós em si
- Vínculos afetivos reais se constroem à distância com consistência — não com frequência de encontros presenciais
- A análise não resolve a distância, mas muda a relação da mãe com a culpa, o que muda o que ela oferece aos filhos
O que está em jogo nessa dor
Maternidade no exterior é criar filhos longe da família estendida, sem o suporte informal que no Brasil seria natural — avó que busca na escola, tia que fica quando você está doente, família que aparece no fim de semana. É uma forma de maternidade que exige mais de 2 adultos do que qualquer modelo cultural esperava.
Quando uma mãe brasileira que mora fora fala sobre os filhos crescendo sem os avós, geralmente há várias dores misturadas — e eu gosto de separá-las na clínica porque cada uma pede uma coisa diferente.
Tem a dor pelos filhos. A preocupação de que eles estejam perdendo algo importante — a relação com os avós, o contato com a família extensa, a língua portuguesa como língua cotidiana, a cultura brasileira como experiência vivida, não como folclore. Esse medo é real e merece ser levado a sério.
Tem a culpa. A sensação de que você fez uma escolha — ficar fora, construir vida aqui — e que seus filhos estão pagando o preço. Essa culpa pode ser muito pesada, especialmente quando a sua própria mãe liga e diz, com a melhor das intenções: "Os meninos estão crescendo e eu não estou vendo."
Tem a saudade da mãe que você não pode ser. Porque no Brasil, criar filho não é individual. Tem avó que busca na escola, tia que fica quando você está doente, família que aparece no fim de semana. Aqui, muitas vezes, é você e o seu parceiro contra o mundo — e essa solidão da maternidade sem rede é uma perda concreta, não só emocional. Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, cerca de 4,8 milhões de brasileiros vivem fora do Brasil atualmente[^1] — uma geração inteira de mães criando filhos longe dessa rede.
A raiva que não tem para onde ir
E tem, às vezes, uma raiva que eu ouço nas entrelinhas e que raramente é nomeada diretamente: raiva da situação, raiva de ter que escolher, raiva de que a vida não coube inteira numa só decisão. Essa raiva tem espaço na análise. Ela faz sentido.
A culpa é o maior obstáculo
Não a situação em si — a culpa que a situação gera.
A culpa tem uma função: ela sinaliza que você se importa com o bem-estar dos seus filhos. Nesse sentido, é quase um sinal de amor. O problema é quando ela se fixa — quando vira uma narrativa interna que diz "você fez algo de errado com seus filhos" e toca em loop, sem parar.
Essa narrativa tem consequências práticas. Na minha clínica, vejo mães que vivem essa culpa de forma muito intensa tomando decisões compensatórias: superpresentes no pouco tempo que têm, registrando ansiosamente cada momento para "provar" para a família no Brasil que estão criando as crianças bem, ou evitando criar raízes no exterior "porque vamos voltar logo" — e esse logo dura cinco anos.
A culpa não examinada também contamina a relação com os avós. É comum, na clínica, ouvir a dificuldade de conversar com a própria mãe sobre os netos. Cada conversa vira terreno minado — a avó fala das crianças com uma saudade que a mãe ouve como acusação, mesmo que não seja a intenção. Cada ligação termina com as duas magoadas e ninguém sabendo exatamente por quê. Em casos assim, o trabalho analítico abre espaço para separar o que é saudade da avó do que é culpa projetada pela mãe que está fora.
O que as crianças realmente perdem e o que podem ter
É verdade que crianças que crescem longe dos avós perdem alguma coisa. Não vou dourar isso.
Mas "perder alguma coisa" não é a mesma coisa que "ser prejudicada permanentemente". E essa distinção importa muito para a mãe que está no Brasil às 3h da manhã com o filho doente, culpada.
Relações afetivas se constroem de muitas formas. Crianças que têm avós presentes só por videochamada, mas com consistência — com rotina de contato, histórias, brincadeiras que acontecem mesmo pelo iPad — frequentemente desenvolvem vínculos reais com esses avós. Diferentes dos vínculos de quem vê todo domingo, claro. Mas reais.
Há também coisas que a criança ganha: exposição a idiomas desde pequenininha, facilidade de adaptação que vem de crescer em contexto multicultural, uma perspectiva de mundo que uma criança criada num único contexto não tem. Isso não cancela o que falta — mas existe.
O que de fato interfere no desenvolvimento das crianças
O que mais interfere no desenvolvimento das crianças, segundo o que a clínica mostra — e minha experiência confirma — não é a ausência dos avós em si. É crescer ao lado de uma mãe cronicamente culpada, cronicamente dividida, que não consegue estar plenamente presente porque está sempre pensando no que está perdendo.
Esse é o argumento mais concreto para a mãe que mora fora cuidar da própria saúde mental. Não por ela. Pelos filhos.
A questão da língua portuguesa
A preocupação prática mais frequente que ouço nesse tema é: as crianças começam a responder em inglês — ou alemão, ou francês — e o português vai ficando para trás. A mãe sente isso como uma perda identitária — da criança, e de si mesma.
Existe uma ambivalência real aqui. Você quer que o filho se adapte, que tenha amigos, que não sofra por ser diferente na escola. Ao mesmo tempo, quer que ele saiba de onde veio, que possa falar com os avós, que carregue o Brasil de alguma forma.
O que observo — e que a literatura de aquisição bilíngue também aponta — é que o português dos filhos geralmente está mais relacionado à qualidade afetiva das relações em português do que à quantidade de exposição. Uma criança que tem com a avó uma relação carinhosa e consistente — mesmo por vídeo — vai querer falar português com ela. Uma criança que sente o português associado a culpa, a separação, a choro — vai resistir.
O que a psicanálise oferece para a mãe nessa situação
Espaço para separar as coisas.
A dor pela ausência dos avós. A culpa. A exaustão de criar filho sem rede. A raiva. O medo de ter errado. A saudade de como seria a maternidade se você estivesse no Brasil. E a pergunta que fica embaixo de tudo: fiz a coisa certa?
Essas coisas precisam de espaço separado. Misturadas, elas se alimentam umas das outras e viram uma sensação permanente de inadequação. Em análise — em sessões semanais de 50 minutos, ao longo de meses — cada uma pode ser olhada com mais calma. E o que costuma emergir desse processo é que a mãe começa a conseguir estar mais presente onde está. Menos dividida. Mais capaz de dar às crianças o que elas realmente precisam, que é presença, não perfeição.
Perguntas frequentes sobre filhos crescendo sem os avós
Filhos criados longe dos avós têm dificuldades de apego?
Não necessariamente. O apego seguro depende principalmente da qualidade da relação com os cuidadores primários — os pais. A ausência dos avós pode ser uma perda, mas não determina o desenvolvimento emocional da criança. O que mais afeta é a presença ou ausência de estabilidade emocional nos pais.
Como manter o vínculo entre netos e avós à distância?
Consistência é mais importante do que frequência. Videochamadas com rotina, histórias contadas pelos avós, pequenas tradições que acontecem mesmo à distância — canção de ninar, receita enviada, carta escrita. O vínculo se constrói pela qualidade afetiva do contato, não só pela quantidade de horas de tela.
Minha filha não quer falar português com a avó. O que faço?
Antes de tentar resolver na técnica, vale examinar o que está por trás da resistência. Em muitos casos, a criança associa o português a tensão emocional — culpa da mãe, saudade, separação. Quando essa tensão diminui, a resistência ao idioma frequentemente diminui junto. É um trabalho da mãe, não só da criança.
Devo voltar ao Brasil para que meus filhos cresçam perto dos avós?
Não é decisão que posso tomar por você — nem devo tentar. O que posso oferecer é espaço para examinar o que está guiando essa questão: é o que você de fato quer, é culpa, é pressão da família, é medo? Separar essas coisas muda a qualidade da decisão.
A culpa de criar filhos longe dos avós vai passar?
Com trabalho analítico, ela costuma mudar de forma. Não desaparece completamente — porque a situação que a gerou ainda existe. Mas deixa de ser uma narrativa que toca em loop e passa a ocupar um lugar mais proporcional. A mãe consegue ser presente sem ser constantemente dividida.
Conclusão
Filhos crescendo sem os avós no Brasil é uma das dores mais silenciosas das mães brasileiras que moram fora. Ela não tem solução simples — mas tem elaboração possível. A análise oferece espaço para separar a culpa da situação, a dor real das narrativas que amplificam essa dor, e o medo do que está de fato acontecendo.
Se você se reconheceu no que escrevi — na vovó do iPad, na culpa que toca em loop — estou aqui.
Saiba como funciona o atendimento ou Agendar conversa pelo WhatsApp. Se você está na Alemanha, veja como atendo brasileiros na Alemanha. Leia também sobre saudade da família, que frequentemente está na base dessa dor.
Referências
[^1]: Ministério das Relações Exteriores. (2023). Brasileiros no Mundo: Estimativas populacionais das comunidades no exterior. Brasília: MRE/DCE.
Este artigo tem caráter informativo. Não substitui avaliação ou acompanhamento clínico individual.
